O segredo dos seus olhosOutro filme que vi há poucos dias foi O Segredo dos Seus Olhos, obra lançada no longínquo 2009. Filme que, por ser argentino e por eu gostar do cinema deste país, já desejava ver desde que foi lançado. Porém, como não sou rato de cinema e na locadora da qual sou sócio é mais fácil encontrar Jesus que um filme em lançamento, acabo sempre assistindo a qualquer filme depois que todo o mundo já o assistiu.

Não me incomodo com isto, pois raramente sinto a urgência em ver ou ler uma obra que acaba de ser lançada: o que mudará nela se eu consumi-la um ano depois? Sempre há bons filmes lançados há um ano ou mais que ainda não vi. E, se não posso conversar em uma mesa de bar sobre o que está nos cinemas, o distanciamento traz vantagens: já tenho à minha disposição inúmeras críticas, formais e informais, que me ajudam a selecionar o que vejo (melhor ver um ganhador do Oscar que um que nem foi indicado ao prêmio, por exemplo) e às quais posso comparar minha visão. Por fim, mesmo vendo o filme pela primeira vez, sei que que minha opinião sobre ele será menos polarizada, menos emocional, do que a dos que o vêem quando ele ainda é objeto de discussões apaixonadas.

O Segredo dos Seus Olhos foi dirigido por Juan José Campanella, de quem eu já havia visto O Clube da Lua e O Filho da Noiva, filmes bons, com Ricardo Darín no papel principal. O mesmo Ricardo Darín que estrela O Segredo dos Seus Olhos. Esta dupla é sensacional. Se não vemos diretamente Campanella, vemos o que ele consegue extrair de Darín, que faz qualquer personagem parecer gente.

Mas aqui a dupla se superou e O Segredo dos Seus Olhos levou o Oscar de melhor filme estrangeiro, o segundo conquistado pela Argentina (o primeiro foi por A História Oficial, de 1985) – prêmio que o Brasil parece longe de conquistar, enquanto o público insistir em ver apenas as bobagens levadas às telas pela Globo e seus atores manjados.

A cena mais expressiva, o clímax do filme, entretanto, Ricardo Darín divide com Pablo Rago e Javier Godino. Os três atores não dizem quase nada, nesta cena. Completamente desnecessário. Os olhares que trocam fala muito mais, falam o inexprimível. Ao final do filme, tive de voltar até esta cena e a ver novamente. Que interpretação! Os três mereciam um pedacinho de Oscar de melhor ator por ela…

Já vi vários filmes argentinos e é muito comum que não tenham final. Isto é, acabam em uma cena qualquer, como se dissessem: filmes tolos é que têm uma conclusão, pois a vida continua. Esperava isto de O Segredo dos Seus Olhos. Muitas pessoas odeiam isto. Eu apenas aceito. Mas este filme tem final. Um dos motivos para que tenha sido tão bem recebido pelo público mundial.

Mas não basta ter uma conclusão lógica para arrastar multidões ao cinema – para isto, é necessário que o enredo, o roteiro, mais que lógico, seja mágico. E maior a magia quanto menos ela tem de apelar para o impossível. A história que se passa em O Segredo dos Seus Olhos é extraordinária, mas plausível.

O que nos leva a uma triste conclusão: poucos profissionais são tão injustamente esquecidos quanto os roteiristas. O diretor é essencial. Os atores também. Mas sem um bom roteiro eles não são nada. É possível transformar um ótimo roteiro em um péssimo filme, mas o contrário é praticamente impossível. Todos se lembrarão de Darín, alguns se lembrarão de Campanella… Mas quem escreveu o filme?

Por coincidência, foi Juan José Campanella. Mas não sozinho, e sim com Eduardo Sacheri. Que escreveu o livro A Pergunta dos Seus Olhos, no qual o filme foi baseado. Minhas palmas vão inicialmente para Eduardo Sacheri, portanto.

Aplaudamos os bons roteiristas, falemos deles. Sem eles, o que nos restaria seria apenas as bobagens caça-níqueis e descartáveis de Hollywood. (Outro filme que deve quase tudo ao roteirista e que vi há poucos dias é A Vida de David Gale. Surpreendente até o último segundo, literalmente – piscou, perdeu o final. Recomendadíssimo.)

Por que guardamos (colecionamos) filmes que sabemos que não veremos novamente? O Segredo dos Seus Olhos é um dos poucos filmes que sei que verei mais uma vez. Por conta daquela cena.

Palmas para Sacheri, Campanella, Darín, Rago e Godino. E até para o maquiador que fez a careca do personagem de Pablo Rago. Talvez aquela careca seja o mais importante da cena. Talvez o segredo do filme não sejam os olhos. É ela que afirma que o tempo se vai, mas o homem não muda.

“Não se pode trocar de paixão.”, é dito a certa altura.

É, talvez, um filme sobre a impotência. E a quase impossível batalha contra esta.

E sobre a amizade, isto é, o amor.

E sobre traição.

Chega… “Não fique pensando mais. Vai ter mil passados e nenhum futuro.” Assista!

*

PS: a crítica do filme O Diabo no Banco dos Réus, uma péssima obra, ajuda a entender ainda mais a importância de um bom roteiro.

  One Response to “O SEGREDO DOS SEUS OLHOS (FILME) – CRÍTICA”

  1. [...] A gagueira, a princípio. De um modo muito mais amplo, a impotência (também vi esta temática em O Segredo dos Seus Olhos, mas, não, não estou impotente – ainda). Não a sexual, a princípio, mas, de modo mais [...]

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